quarta-feira, 25 de março de 2015

Dona Antônia ou a flor pequenininha que nasce na beira do asfalto.


 Há tempos conhecemos uma senhora. Enquanto criávamos cenas e quebrávamos a cabeça para construir algo orgânico e vivo, Dona Antônia chegou singela e toda curiosa para saber o que nós, em plena flor da juventude, fazíamos neste galpão pintado de preto por dentro e vermelho por fora. Era embaraçoso o fato de não sabermos respondê-la, afinal de contas, algum motivo havia para ali estar todos os dias, até naqueles em que o calor era fatigante e exaustivo. Mas então respondemos – teatro, Dona Antônia. Aqui, fazemos teatro – e foi como se tivéssemos respondido qualquer outra coisa que não fizesse sentido algum para a velha quase jovem senhora. Não importava. Ali, ela estava conosco. E tínhamos de conhecê-la. É o que dizem quando cruzamos com alguém de mais idade. Que este alguém tem sabedoria e que é preciso escutá-lo, mesmo quando diz silêncios. A Dona Antônia desdizia as quietudes. Sempre falava, até quando o assunto lhe faltava, aí dizia à toa. Mas, de vez em quando, fazia brotar umas lembranças e dava-nos as flores que apareciam em forma de sorriso. E trazia tudo isso dentro de um carrinho, que depois de alguns minutos, transformava-se em café, pão de queijo e bolo. Era o lugar e o tempo de papear com toda a seriedade de uma velha criança. Alguns dias mais Dona Antônia veio e mais e mais coisas nos contou. Depois de um tempo, já não sabíamos mais se era ela que precisava de nós pra contar suas histórias ou se éramos nós que precisávamos dela para...descobrir. É...descobrir mesmo! Jogar fora a carcaça que vai se construindo em cima de cada um, pra entender o que vale a pena ser de verdade. Nós não sabíamos por qual razão aquela senhora nos visitava, mas as coisas foram se fazendo, aos poucos, mais valiosas. Feito flor pequenininha que nasce na beira do asfalto. Só sabíamos que disso era preciso cuidar. E assim foi que a Dona Antônia nunca mais se foi de nós.

Camila Feoli

Sobre a atual pesquisa da companhia.

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